A marca que vende confiança ainda pesa mais que a interface nativa de exchange. Levantamento da Visa no estudo global Money Travels 2026, com mais de mil adultos no Brasil, aponta que 77% dos entrevistados confiam mais em criptomoedas oferecidas por bancos e instituições financeiras tradicionais do que por plataformas nativas do setor. A leitura foi publicada nesta quarta-feira (23) pelo BitNotícias, com base em reportagem do Future of Money.
O padrão se repete na região. No Peru, 80% responderam o mesmo. No México, 76%. A América Latina, nessa amostra, topa o ativo digital desde que ele venha embalado por CNPJ conhecido e trilho bancário familiar.
Stablecoins: Brasil acima da média norte-americana
Outro recorte chama atenção: 51% dos brasileiros afirmam ter algum conhecimento sobre stablecoins – acima dos 41% registrados na América do Norte na mesma pesquisa. Peru ficou em 50% e México em 45%.
Quase metade dos brasileiros (49%) declarou aceitar mais etapas de verificação e transações mais lentas se isso reduzir risco de golpes e transferências não autorizadas. Em remessas internacionais, a disposição de usar stablecoin sobe para 74% quando há proteção reforçada contra fraude e perda financeira.
"As barreiras à adoção decorrem menos da conscientização e mais da confiança no ecossistema", escreveram os pesquisadores da Visa, segundo a cobertura. Cesar Espinoza, head de Visa Direct para América Latina e Caribe, destacou a combinação de conveniência com previsibilidade nas transferências cross-border.
Encaixa no que Itaú, Nubank e B3 já fazem
O dado ajuda a explicar movimentos que o mercado brasileiro já observa. O avanço do Itaú em cripto, com salto relevante na base de clientes do serviço, e a expansão de ofertas em bancos e fintechs regulados seguem a lógica capturada pela Visa: parte do público não quer abrir conta em exchange; quer comprar bitcoin no mesmo app em que paga boleto.
A B3, ao listar ETFs e futuros de cripto, empacota exposição digital dentro de infraestrutura regulada. Nubank e outras plataformas com licença bancária ou de pagamento operam com vantagem estrutural no novo regime de PSAVs: não precisam da autorização específica que exchanges independentes disputam no Banco Central.
O que o número não resolve
Preferir o banco não significa que o brasileiro rejeite autocustódia ou exchanges. Significa que, na margem da adoção, a confiança institucional ainda é o filtro. Para quem vende produto cripto no Brasil, o estudo aponta prioridade clara: transparência, regras de disputa e antifrfraude pesam mais do que velocidade pura.
Para o regulador, o quadro é ambivalente. Concentrar fluxo em instituições supervisionadas facilita PLD/FT e reporte ao Coaf. Também pode estreitar a diversidade de modelos – exatamente o debate que corre em paralelo ao prazo de autorização das PSAVs.
Em síntese: a Visa não descobriu que o brasileiro "ama banco". Mostrou que a porta de entrada preferida para cripto, em 2026, ainda é a instituição financeira tradicional – e que stablecoins ganham tração quando o risco de fraude está sob controle.
Remessas: onde a stablecoin ganha utilidade
O salto para 74% de aceitação de stablecoin em remessa internacional com antifraude reforçado mostra o caso de uso mais concreto para o brasileiro médio: pagar ou receber fora do país com menos atrito cambial e mais previsibilidade. Não é especulação de altcoin; é trilho de pagamento.
Isso alinha Visa Direct, bancos com on-ramp próprio e fintechs reguladas. Exchanges nativas continuam relevantes para traders e para quem busca lista ampla de ativos, mas perdem a disputa da "primeira compra" se não igualarem sensação de segurança do app bancário.
O estudo também sugere disposição para fricção consciente: quase metade aceita KYC mais lento em troca de menos golpe. No Brasil de Pix instantâneo, a frase parece contraintuitiva – até se lembrar do volume de fraudes sociais e engenharia social em transferências rápidas. Cripto herda o mesmo medo; o banco herda a confiança residual.












