O Itaú Unibanco anunciou nesta terça-feira (22) que o Itaú Ventures, braço de corporate venture capital do banco, entrou em uma extensão da rodada da norte-americana Simile, startup de inteligência artificial que simula comportamento humano e cenários complexos. O valor do cheque brasileiro não foi divulgado. A operação integra a Série B de US$ 200 milhões liderada pela Greenoaks, com valuation de US$ 2 bilhões, segundo a CNN Brasil (Estadão Conteúdo / Broadcast).
O timing importa: enquanto o Itaú transforma um fornecedor estratégico em investida de IA, o venture capital global desloca a maior fatia do capital para inteligência artificial – e comprime o espaço de fintechs e cripto.
O aporte
Conforme o comunicado do banco, o Itaú foi o primeiro cliente da Simile na América Latina e já cocriava aplicações desde os estágios iniciais. Só depois veio o equity. O CTO Carlos Eduardo Mazzei vinculou a decisão à estratégia AI First e disse que a abordagem da Simile pode complementar a agenda de IA e acelerar produtos e experiências, segundo a CNN Brasil.
A Série B original saiu no fim de julho de 2026. A TechCrunch atribui a liderança à Greenoaks, com participação de Index Ventures, Hanabi, Bain Capital Ventures, A*, Factory, Definition e CVS Health Ventures. O blog oficial da Simile descreve o round como co-liderado por Greenoaks e Index, a US$ 2 bilhões pós-money. Cinco meses antes, a empresa saíra do stealth com Série A de US$ 100 milhões liderada pela Index. Fatia e termos do aporte do Itaú não foram confirmados.
O que é a Simile
A Simile constrói modelos que projetam como populações, organizações e mercados reagiriam a decisões ou produtos antes do lançamento. A TechCrunch a enquadra no nicho de synthetic users para pesquisa de produto e marketing. O fundador, Joon Sung Park, doutor por Stanford, veio do projeto acadêmico Smallville, no qual agentes de IA simulavam vidas humanas.
No anúncio da Série B, a companhia afirmou ter multiplicado a receita por cinco, rodado dezenas de milhões de simulações para empresas da Fortune 100 e crescido de Palo Alto para mais de 50 pessoas. Clientes citados no blog oficial incluem CVS Health, Wealthfront, Deloitte e Gallup. A tese comercial é direta: com IA generativa, criar ficou barato; acertar o que criar, para quem e como, continua caro.
Por que o Itaú
O Itaú Ventures nasceu da internalização do Kinea Ventures, com CVC de R$ 500 milhões e R$ 250 milhões para novos aportes, segundo o Pipeline Valor (junho de 2025). O mandato cobre serviços financeiros, infraestrutura, cibersegurança e IA aplicada, com cheques minoritários tipicamente na casa das dezenas de milhões de reais.
Em abril de 2026, o mesmo veículo liderou a Série A da Minter, de data centers móveis que monetizam curtailment de energia renovável via mineração de bitcoin, conforme InfoMoney e Pipeline Valor. O CVC já olhou para ativos digitais; agora reforça simulação e IA. A lógica de cliente-sócio reduz risco de integração e alinha o cheque à agenda AI First.
O dinheiro migrou para IA
No primeiro trimestre de 2026, a IA concentrou cerca de 79% do funding global de VC – US$ 226,2 bilhões – segundo a CB Insights (State of Venture Q1 2026). Fintechs caíram para 4% do VC mundial, ante 11% em 2025. O VC global bateu US$ 285,5 bilhões no trimestre, enquanto o funding de fintechs recuou 37,3% na comparação trimestral, para US$ 12,1 bilhões, ainda conforme a CB Insights.
No H1 2026, a Crunchbase News registrou US$ 28,6 bilhões em fintech (+22,7% ante H1 2025), mas com 25,7% menos deals: menos cheques, maiores, concentrados em infraestrutura e IA. Em cripto, a Galaxy Research apontou cerca de US$ 4 bilhões no Q1 2026 – metade do trimestre anterior – e citou IA, ETFs à vista e digital asset treasuries como concorrentes do capital de venture. Em julho, a CoinDesk noticiou que a Paradigm levantou US$ 1,2 bilhão para IA e robótica, sem sair de cripto, mas alargando a fronteira.
O que isso significa para fintechs e cripto no Brasil
Na América Latina, fintech ainda puxa o VC: em 2025 a região levantou cerca de US$ 4,1 bilhões, com o Brasil em US$ 2,1 bilhões, segundo a Crunchbase News. A tese local segue em Pix, Open Finance e Drex – mas a segunda onda aponta para software vertical com IA e infraestrutura digital, o tipo de aposta que a Simile ilustra no exterior.
Para o ecossistema brasileiro, o sinal do Itaú é duplo. Bancos grandes seguem como clientes e, às vezes, sócios – validação poderosa. Ao mesmo tempo, o capital global privilegia plataformas de IA e poucos líderes. Apps financeiros genéricos sem diferencial claro enfrentam ambiente mais duro; quem une cripto a energia, custódia, stablecoins ou automação com IA conversa melhor com alocadores e corporates.
Conclusão
O Itaú Ventures na Simile é parceria comercial virando equity e um termômetro: o maior banco privado do Brasil quer testar cenários com IA antes de colocar produto na rua. O valor do aporte brasileiro segue em aberto. A direção do dinheiro de risco em 2025-2026, não: a IA tomou a maior fatia do VC global; fintechs e cripto sobrevivem com menos deals e cheques seletivos. No Brasil, a pergunta deixa de ser “IA ou fintech?” e passa a ser “qual fintech ou protocolo ainda faz sentido sem IA no núcleo?”.












