A Lemon, plataforma sul-americana de criptomoedas, anunciou nesta quarta-feira (16) que vai encerrar suas operações no Brasil. Em comunicado a clientes obtido pelo BitNotícias, a empresa atribuiu a decisão às novas regras do Banco Central para o setor: exigências que, segundo a Lemon, “não favorecem o desenvolvimento de produtos” do segmento.
O cronograma é curto. Desde o anúncio, clientes brasileiros já não conseguem adicionar dinheiro às contas. O Lemon Card deixa de funcionar em 30 de setembro. Em 16 de outubro de 2026 – 30 dias após o aviso – as contas locais serão excluídas automaticamente. A Argentina, a Colômbia e o Peru seguem ativos, segundo a companhia.
O timing reforça o contraste. Em 9 de agosto, a Pomelo divulgou acordo com a Lemon para lançar no país o Visa Lemon Card – cartão acoplado à carteira cripto, com gasto em reais e cashback em digitais. Pouco mais de um mês depois, o mesmo cartão já tem data de desligamento.
Uma onda, com graus diferentes de saída
A Lemon não está sozinha no calendário de 2026. O BitNotícias e outras coberturas setoriais descrevem um mapa em que várias plataformas reduzem ou encerram serviços no país às vésperas de 30 de outubro, data em que a Resolução BCB 520 endurece o relacionamento entre bancos, instituições de pagamento e prestadoras de serviços de ativos virtuais (PSAVs) sem autorização ou sem pedido formal em andamento.
A Bitso encerra o atendimento direto ao varejo brasileiro até o fim de outubro e migra clientes para o Mercado Bitcoin. A Coinext anunciou encerramento ordenado de compra, venda, custódia e transferência, citando capital regulatório mínimo insuficiente para pedir autorização. A Digitra.com também optou por não solicitar autorização e marcou 21 de setembro como data de atenção para retirada de ativos em custódia. A NovaDAX já havia descontinuado a operação de exchange no Brasil em julho, após avaliação estratégica.
A Crypto.com, por sua vez, anunciou em 15 de setembro o fim permanente da conta em reais (BRL) a partir de 25 de outubro. Depósitos, saques e negociação fiat-cripto em reais deixam de existir na conta local; saldos remanescentes em BRL serão convertidos em USDC. A empresa afirma, contudo, que a negociação de mais de 400 criptomoedas e o cartão pré-pago Visa seguem disponíveis – ou seja, é um recuo do “on-ramp” em reais, não um anúncio de saída total do país.
Nem todas as saídas têm a mesma causa declarada. Lemon e Digitra apontam o ambiente regulatório. Coinext cita capital mínimo. Bitso fala em parceria comercial. NovaDAX em estratégia. Crypto.com não vinculou explicitamente o fim da conta BRL às normas do BC. O efeito prático para o usuário, porém, é parecido: menos opções de depositar reais, sacar Pix e operar com a mesma interface de 2024-2025.
Depois das exchanges, neobanks e cartões?
A pergunta que o mercado faz agora é se a consolidação para nas exchanges ou se avança sobre produtos de gasto – cartões cripto, contas com stablecoin e neobanks digitais. Até aqui, o sinal é misto.
Do lado das saídas, o próprio Lemon Card entra no pacote de desligamento. Do lado da continuidade, reportagens recentes – inclusive na Folha, em agosto – descrevem cartões ligados a Binance, KAST, Onda Finance e OKX ainda posicionados para uso de criptoativos em compras no Brasil e no exterior, em um ambiente em que o IOF sobre stablecoins segue em disputa política e as autorizações de PSAV ainda estão em fase de adaptação.
Modelos diferem. Há cartões de débito que convertem cripto no momento da compra, produtos lastreados em USDC e propostas autocustodiais como o ether.fi Cash, cuja disponibilidade e enquadramento no Brasil dependem de elegibilidade regional e de como a operação se encaixa – ou não – nas Resoluções 519, 520 e 521. Não há, nas fontes públicas desta semana, anúncio equivalente ao da Lemon dizendo que KAST, ether.fi ou outros “neobanks” cripto estão encerrando o país. O que existe é pressão regulatória sobre quem presta serviço de ativo virtual com on-ramp em reais, custódia e câmbio implícito.
Para o leitor, a distinção importa. Encerrar uma exchange com Pix e livro de ofertas não é o mesmo que desligar um cartão Visa lastreado em stablecoin, nem o mesmo que um neobank tradicional sem PSAV. O que unifica o momento é o prazo de 30 de outubro: instituições autorizadas pelo BC passam a ter restrições claras para operar com PSAVs fora do regime de autorização.
O que fazer na prática
Quem tem saldo na Lemon precisa acompanhar o app e o suporte (a empresa cita canais como suporte@lemon.me em materiais de atendimento) antes de 16 de outubro. Quem usa Crypto.com com Cash Account em reais deve decidir entre sacar BRL, converter para cripto ou aceitar a conversão automática para USDC em 25 de outubro. Clientes Bitso, Coinext e Digitra seguem os cronogramas próprios de migração ou saque já publicados.
Em síntese: a Lemon sai do Brasil citando a regulação do BC, no meio de uma sequência de plataformas que encolhem o varejo local. Cartões e contas em stablecoin ainda aparecem como frente aberta – não como replicação automática da saída das exchanges. O próximo teste do mercado brasileiro não é só quantas corretoras pedem autorização, mas quais produtos de gasto e depósito sobrevivem depois de 30 de outubro.











