A Blockstream fechou a porta para qualquer barganha com os responsáveis pelo exploit da Liquid Network: a empresa afirmou que não pagará resgate pelos cerca de 598,5 BTC ainda retidos – cerca de US$ 47 milhões na cotação citada pelas fontes – e classificou a retenção como crime, não como divulgação responsável de vulnerabilidade.
Em comunicado publicado na sexta-feira (11 de setembro de 2026), a companhia de infraestrutura de Bitcoin foi direta: obter ativos sem autorização e recusar a devolução “não é atividade white-hat. É roubo.” O tom encerra dias de negociação on-chain após o ataque de 6 de setembro, quando cerca de 4.000 BTC – então estimados em cerca de US$ 320 milhões – saíram da carteira da federação da sidechain.
O que aconteceu na Liquid
A Liquid é uma sidechain federada do Bitcoin, lançada em 2018, usada sobretudo por exchanges e fluxos institucionais para liquidações mais rápidas e transações confidenciais. O lastro prometido é 1:1: cada L-BTC em circulação deveria corresponder a bitcoin custodiado pela federação.
Segundo a Blockstream, Decrypt, Cointelegraph Brasil e análises técnicas (incluindo CertiK), o exploit explorou uma falha no software Elements – no cache de verificação de range proofs de Confidential Transactions – que permitiu criar L-BTC sem lastro correspondente e, em seguida, resgatar bitcoin real via peg-out (inclusive passando por infraestrutura ligada à SideSwap, membro da federação). Antes do incidente, a reserva multiassinatura guardava cerca de 4.200 BTC; o ataque drenou a maior parte desse estoque.
No dia seguinte, os atacantes devolveram cerca de 3.400 BTC (cerca de 85% do volume levado), mas mantiveram os 598,5 BTC restantes no endereço de destino. A Liquid suspendeu operações, a Blockstream aplicou correções nos nós de ponte (Elements v23.3.4) e a rede voltou a produzir blocos; peg-outs seguiram restritos enquanto a recuperação avançava.
Da narrativa “white-hat” ao pedido de bounty
Os invasores se apresentaram como white hats e, em mensagem on-chain amplificada por Samson Mow (CEO da JAN3 e ex-estratégia da Blockstream), exigiram uma recompensa de 10% paga com recursos próprios da Blockstream. Também ameaçaram que, se a empresa não cedesse, titulares de ativos na Liquid poderiam enfrentar perda da ordem de 15% – exatamente a fatia ainda retida.
A Blockstream respondeu que negociar de boa-fé para recuperar fundos de usuários não equivale a aceitar as condições. Recusou o precedente de desenvolvedores de software open source para a comunidade Bitcoin serem forçados a pagar resgates desproporcionais à própria participação econômica. Também descartou “haircut” em usuários: “Bitcoin é hard money e não pode ser emitido sem custo.”
- Valor ainda retido: cerca de 598,5 BTC (cerca de US$ 47 milhões nas reportagens de 11/set).
- Devolvido após o exploit: cerca de 3.400 BTC.
- Exigência dos atacantes: bounty de 10% do total, pago pela Blockstream.
- Ameaça citada: perda de cerca de 15% para holders se o pagamento não viesse.
Próximo passo: autoridades, exchanges e forense
Se os fundos restantes não forem devolvidos voluntariamente, a Blockstream diz que perseguirá “toda via legal disponível” com autoridades policiais, exchanges, prestadores de serviço e especialistas em forense on-chain. O fechamento do comunicado lembra o óbvio operacional do Bitcoin: transações não desaparecem, nem as evidências que deixam. A ordem final: “Devolvam o bitcoin.”
Para o leitor brasileiro, o episódio reforça dois pontos práticos. Primeiro, sidechains e federations com peg 1:1 concentram risco operacional e de software mesmo quando o ativo de base é Bitcoin. Segundo, a linha entre bug bounty legítimo e extorsão depende de devolução integral e de processo de disclosure – não de retenção parcial sob ameaça de prejuízo aos holders. Portais em português (Cointelegraph Brasil, BitNotícias) repercutiram a recusa; até o fechamento desta pauta, não havia peça dedicada equivalente em Livecoins, InfoMoney ou Valor.
Fechamento
Com 85% já de volta e a falha corrigida no Elements, o que resta não é um “acordo de segurança” – é um saldo de quase 600 BTC sob disputa jurídica e policial. A Blockstream escolheu não legitimar o modelo de resgate. O mercado agora acompanha se a pressão forense e a trilha pública do Bitcoin bastam para o restante voltar à federação sem pagamento.
Fontes
- Decrypt – Blockstream Refuses Ransom for Return of $47M in Bitcoin from Liquid Hack
- Cointelegraph Brasil – Blockstream rejeita pedido de resgate dos hackers da Liquid
- Bitcoin.com News – Return the Bitcoin: Blockstream Draws Line After 4,000 BTC Hack
- Crypto Briefing – Blockstream refuses ransom after recovering 85% of stolen BTC
- BitNotícias – Blockstream recusa pagar resgate por 598 BTC roubados da Liquid
- CertiK – Liquid Network Incident Analysis










