O mercado de criptomoedas no Brasil deve encolher – e rápido. Executivos ouvidos pelo Valor Investe estimam que, de um universo de cerca de 150 a 200 players, só 20 a 25 terão estrutura e capital para pedir autorização como prestadoras de serviços de ativos virtuais (PSAV, o equivalente regulatório brasileiro ao que o mercado costuma chamar de VASP). Dessas, aproximadamente 10 teriam condição de serem aprovadas pelo Banco Central.
O número não é oficial do BC. É uma leitura setorial, repercutida por veículos como BitNotícias e Livecoins, e precisa ser lida com esse disclaimer: estimativa de quem opera no mercado, não teto de licenças anunciado pela autoridade.
O que a norma realmente fixa
O marco das Resoluções BCB 519, 520 e 521 entrou em vigor em 2 de fevereiro de 2026. Quem já operava nessa data precisa protocolar a Fase 1 do pedido até cerca de 30 de outubro de 2026, conforme a Instrução Normativa BCB 704, segundo escritórios e notas jurídicas (Migalhas, Machado Meyer, Mattos Filho).
O capital regulatório, citado de forma recorrente a partir da Resolução Conjunta 14, fica na faixa de R$ 10,8 milhões a R$ 37,2 milhões, conforme a atividade e o risco. Nas consultas públicas, os valores discutidos eram bem menores – da ordem de R$ 1 milhão a R$ 3 milhões. Essa distância é o centro da briga entre associações, advogados e consolidadores.
Fontes jurídicas apontam que quem não protocolar deve cessar a operação em prazo curto (cerca de 30 dias). O blog do Mercado Bitcoin menciona 90 dias – um ponto ainda em divergência e que merece checagem no texto normativo. A partir do fim do prazo, instituições autorizadas pelo BC não devem operar com prestadoras sem autorização ou sem pedido em curso.
Quem já saiu – e o que confessou
A consolidação já começou antes do fim do prazo:
- Coinext: o CEO José Artur Ribeiro afirmou que a empresa não atingiu o capital regulatório mínimo e não encontrou opção viável para pedir autorização (Valor Investe, FAQ da própria Coinext, Exame).
- Digitra: o CEO Rodrigo Batista ligou a saída ao marco regulatório; a exchange não submeterá pedido de PSAV e organiza migração voluntária de clientes para a Foxbit (Valor Econômico).
- NovaDAX: encerrou operações e firmou parceria com a Foxbit; o vínculo com o capital mínimo ficou mais implícito do que nas duas anteriores (Exame).
- Bitnuvem: saída gradual desde outubro de 2025; a empresa cita concorrência internacional e regulação “desfavorável às fintechs” (site institucional e Livecoins).
- Bitso: deixou o varejo brasileiro em parceria com o Mercado Bitcoin e permanece no institucional – as duas empresas não atribuem o movimento às exigências de PSAV (Valor Investe).
- Mynt (BTG): absorvida na estrutura do banco, segundo cobertura setorial.
Atenção editorial: alguns resumos afirmaram que “ninguém confessou” motivo regulatório. Isso é impreciso – Coinext e Digitra admitiram o vínculo de forma explícita.
O que dizem os especialistas
Regina Pedroso (ABToken) pede tempo, proporcionalidade, previsibilidade e diálogo. A associação não trata o BC como adversário, mas alerta que capital elevado pode inibir inovação, reduzir concorrência e afastar players do perímetro regulado – e já propôs um SPSAV de porte reduzido.
Isabel Sica Longhi (Ripple, políticas públicas LATAM) descreve cronograma apertado e exigências prudenciais que tratam provedores como “banco comercial de médio porte”. Pede proporcionalidade por atividade e uso dos dados após o prazo para calibrar a régua.
Tatiana Guazzelli (Pinheiro Neto) defende regular o modelo crypto-as-a-service (CaaS) para evitar “quebradeira”. Em entrevistas, citou investimento na casa de cerca de R$ 18 milhões para quem combina intermediação e custódia, além de exigências de governança (diretoria, PLD, risco, ciberssegurança).
Marcelo Manzano (Snowflake Brasil) fala em risco real de consolidação: a faixa de capital “favorece naturalmente empresas que já possuem escala”.
Julia Rosin (ABcripto / Coinbase) critica a distância entre as regras finais e as consultas públicas, e o custo que cria camadas de complexidade – com atraso nas respostas do BC repercutindo em atraso nos pedidos.
Isac Costa (ConJur) compara o capital brasileiro ao MiCA europeu e prevê consolidação, modelos de “PSAV as a Service” e uma escolha consciente de estabilidade em detrimento de competitividade.
Do lado do BC, Gustavo Martins dos Santos (Denor) já disse que “não vai ter um manual” e que a análise será caso a caso. Nagel Paulino, também da Denor, falou em período de silêncio regulatório enquanto o mercado se adapta.
Entre os consolidadores, o tom muda. Roberto Dagnoni (Mercado Bitcoin) posiciona-se contra adiamentos do prazo e resume o cenário em uma palavra: concentração. A Foxbit, na voz de Ricardo Dantas, aparece como destino de migrações (NovaDAX, Digitra).
O que isso muda para quem tem saldo
Na prática, o investidor precisa acompanhar comunicados de saque e migração. Coinext e Digitra já publicaram cronogramas próprios (janelas de saque em cripto e em reais). Quem está em corretoras menores deve verificar se haverá pedido de autorização, parceria com um player maior ou encerramento.
Há também o risco, citado pela Bitnuvem, de parte do fluxo migrar para exchanges internacionais – fora do perímetro que o BC quer organizar. O CaaS e arranjos B2B (como os descritos por João Dunin, do Z.ro Bank) podem ser a válvula para quem não aguenta o capital solo: Pix, contas segregadas, KYC e reporte sob a infraestrutura de outro autorizado.
O que ainda não está claro
- A peça original do Valor Investe com os executivos anônimos da estimativa “~10” (paywall / acesso integral).
- Lista pública de quem já protocolou ou anunciou que vai protocolar.
- O prazo exato de encerramento após não pedir (30 vs 90 dias).
- Declaração oficial da NovaDAX ligando (ou não) o fechamento ao capital mínimo.
- Números de AUM migrado e demissões no setor.
Até lá, o consenso entre especialistas é menos sobre “anti-regulação” e mais sobre o preço da régua: prazo, capital e proporcionalidade. A estimativa de somente cerca de 10 VASPs autorizadas no Brasil é o símbolo desse aperto – útil como termômetro do mercado, desde que ninguém a confunda com um número oficial do Banco Central.










