O Banco Central tornou público, nesta segunda-feira (21 de setembro de 2026), o nome da Onda Finance Sociedade Prestadora de Serviços de Ativos Virtuais Ltda. no Comunicado nº 45.986. É a primeira empresa descrita no documento como prestadora de serviços de ativos virtuais em processo de autorização – um marco simbólico para um mercado que, até aqui, vivia o limbo entre operar e ainda não ter o carimbo definitivo do regulador.
O texto não autoriza a empresa a funcionar. Lista três nomes indicados para a administração – Matheus Luiz Puppe Magalhães, Nildson Ferreira Alves e Renato Gomes Lima – e abre 15 dias para o público apresentar objeções formais, com identificação e documentos, via Protocolo Digital do BC. A análise ficou a cargo da Gerência Técnica em São Paulo (GTSP3). A assinatura é de Carolina Pancotto Bohrer, chefe do Departamento de Organização do Sistema Financeiro.
O que o comunicado realmente diz – e o que não diz
A BitNotícias destacou o ponto que mais confunde o leitor: o mesmo comunicado menciona BTG Pactual Serviços Financeiros DTVM, Sicoob Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, Conta Simples Sociedade de Crédito Direto e Magen Instituição de Pagamento. Não são cinco pedidos cripto. Só a Onda Finance aparece como Sociedade Prestadora de Serviços de Ativos Virtuais. As demais são instituições tradicionais com atos próprios de indicação de administradores.
Em outras palavras: o BC não publicou uma "lista de exchanges aprovadas". Publicou um passo processual de idoneidade de dirigentes de uma PSAV em formação. Sem essa etapa, não há autorização; com ela aprovada, ainda falta o restante do processo. Os nomes entram no Unicad, o sistema de informações sobre entidades de interesse do Banco Central, e seguem sob exame.
Contexto: quem sai e quem tenta ficar
O timing pesa. Prestadoras já em operação precisam protocolar pedidos de autorização até 30 de outubro de 2026. Nos últimos meses, a lista de saídas encurtou o mapa do varejo: Bitnuvem concluiu encerramento gradual iniciado em outubro de 2025; NovaDAX desativou a negociação; Digitra.com anunciou que não pediria autorização; Coinext encerrou o varejo após quase uma década e mais de 420 mil clientes, citando capital mínimo. Em paralelo, o O Bitcoin já cobriu a escassez relativa de pedidos formais – cinco PSAVs na fila em reportagens recentes – e a pressão de capital regulatório, que pode variar de cerca de R$ 10,8 milhões a R$ 37,2 milhões conforme o perfil de risco.
Nesse cenário, ver a primeira PSAV nomeada em comunicado de administração é sinal de que o funil regulatório deixou de ser abstrato. Quem quer permanecer precisa de capital, compliance, segregação de ativos de clientes, segurança cibernética e governança – não só app e liquidez.
Quem é a Onda Finance
A companhia se apresenta como fintech de infraestrutura para operações internacionais: contas multimoedas, pagamentos transfronteiriços e acesso a finanças descentralizadas, com uso de stablecoins e blockchain. Materiais da parceira tecnológica Fireblocks citam integração para gestão de carteiras e conexão com o mercado global. O perfil é mais "Crypto as a Service / cross-border" do que corretora de varejo clássica – o que pode explicar por que ela aparece cedo na fila pública enquanto grandes nomes de exchange ainda não ocupam o mesmo tipo de comunicado.
O que o investidor deve fazer com a notícia
Três leituras práticas:
- Não confundir processo com licença. Objeção em 15 dias e exame de dirigentes são etapas; a autorização de funcionamento é outra decisão.
- Usar o calendário. 30 de outubro é o deadline de protocolo para quem já opera. Empresas que somem do radar sem plano claro de migração merecem cautela redobrada.
- Separar marca de infraestrutura. Bancos e fintechs podem continuar oferecendo cripto via CaaS mesmo sem ser PSAV própria – o modelo Banking as a Service aplicado a ativos digitais.
Jorge de Almeida, CEO da Brasil Bitcoin, tem argumentado que a regulação muda a estrutura competitiva: escala e custo fixo de compliance passam a importar tanto quanto taxa e catálogo de moedas. A publicação do nome da Onda Finance ilustra o outro lado da mesma moeda – o caminho de quem escolheu entrar no perímetro do BC em vez de sair.
Para o setor, o comunicado 45.986 é menos um troféu de marketing e mais um termômetro: o Brasil saiu da fase em que "todo mundo opera" e entrou na fase em que alguém começa a aparecer no Diário oficial do regulador. O próximo teste será ver quantos nomes seguem a Onda Finance até o carimbo final – e quantos preferem fechar o caixa antes de 30 de outubro.












